Wednesday, June 1, 2011
Revolucionários de barriga cheia
Não tenho nada contra os jovens acampados, em protesto de inspiração espanhola, que se manifestam em várias cidades europeias, incluindo um acampamento no Rossio, em Lisboa, até porque por norma não antipatizo com a contestação ao sistema, concorde ou não com as ideias que lhe sirvam de base.
Dito isto, incomodam-me a ignorância e presunção, tanto nos auto-nomeados porta vozes destes movimentos como nos media, que falam de um Verão Espanhol, na sequência da Primavera Árabe que levou ao tão imprevisível quanto irreversível queda de ditadores há muito estabelecidos na Tunísia e Egipto, e à ocorrência de problemas na península arábica, na Líbia e na Síria.
Quem tenha acompanhado os relatos da insurgência popular árabe enquanto ela aconteceu não pôde deixar de assinalar, como de resto a própria imprensa fez, a grande coragem física demonstrada por aquelas populações, que enfrentaram todos os dias, dia após dia, a perspectiva de prisão, tortura ou morte para se manifestarem na rua, pedindo o derrube dos regimes que os oprimiam, sendo que nos casos da Siria e da Libia continuam a chegar até nós relatos que fazem supor um cenário ainda pior do que o verificado no Egipto ou na Tunisia.
Os árabes não se revoltaram por mais representatividade, revoltaram-se por não terem nenhuma. Assim, não consigo evitar uma sensação de desconforto quando vejo uma geração de manifestantes que, por mais legítimas que sejam as suas reivindicações, nunca passaram grande fome ou frio, nem muito menos foram presos ou torturados, e para quem dificuldade é ter pouco recheio para as suas mortalhas, falarem dos seus "irmãos árabes".
Para usar uma expressão muito em voga no Portugal dos anos 70, no caso apontando a incongruência de como alguns dos mais destacados comunistas eram no fundo dos membros economicamente mais favorecidos na sociedade, quando penso na rapaziada que acampou no Rossio só consigo lembrar-me de uma expressão: são revolucionários de barriga cheia.
Thursday, May 5, 2011
Sócrates e o Programa de Governo... do FMI
Ao ler o memorando — irónica designação para um denso documento de 34 páginas — de entendimento entre o Governo português e a Troika, que o Primeiro Ministro se prepara para assinar com a anuência dos principais partidos da oposição, há duas coisas em que é impossível não reparar.
A primeira é que o documento da Troika é, de facto, um Programa de Governo, mais detalhado, aprofundado e objectivo do que os programas que qualquer dos partidos com aspirações governativas foi capaz de apresentar em democracia. Mesmo descontando os constrangimentos que naturalmente não tem quem não se submete ao veredicto das urnas, e mesmo tendo em conta que o Governo foi obrigado a fornecer às entidades internacionais mais e melhor informação do que normalmente forneceria à Oposição, devia fazer-nos pensar como só em circunstâncias destas é possível ter um plano de acção com objectivos claros e quantificados, por oposição às habituais generalidades pré-eleitorais avessas a compromissos.
A segunda é que, tratando-se de um Programa de Governo para os próximos 3 anos, ainda que dispondo de margem de manobra quanto à forma concreta de atingir alguns dos objectivos, o próximo Executivo terá de facto que governar de acordo com os ditames da Troika e, mais importante, sujeito à avaliação trimestral do bom andamento das medidas para ir recebendo as várias tranches do empréstimo agora acordado.
É assim irónico, para não dizer outra coisa, ver um primeiro ministro, o mesmo que afirmou categoricamente que não contassem com ele para governar com o FMI, esforçar-se agora tanto para valorizar o seu papel no processo negocial, e até as semelhanças do programa de reformas que nos foi imposto com o infame PEC4, no fundo defendendo e tentando reclamar parte da autoria do Programa de Governo... do FMI.
Tuesday, May 3, 2011
Do contra
Nestes tempos agitados, se auscultarmos o português médio sobre qualquer assunto que diga respeito à vida pública, seja na política ou na economia, ele dirá, de uma forma ou de outra, que está contra.
Está contra os políticos que não fazem nada de útil pelo País, como está contra a mera sugestão que haja um único dirigente político em Portugal que sirva para alguma coisa que não seja para se servir a si mesmo. Está contra os administradores de empresas públicas que ganham muito dinheiro, ou melhor vistas as coisas está contra qualquer pessoa que ganhe muito dinheiro, seja de que forma fôr, mesmo que seja numa empresa privada com a qual o Estado não tem nada a ver, porque só se pode estar contra quem ganhe demais, ou dito de outra forma quem ganhe muito mais que nós.
Está contra a entrada do FMI a Portugal, porque nos vai obrigar a sacrifícios, com também estava contra os políticos que manifestamente não conseguiam resolver o problema sem o FMI, nem tomar as decisões difíceis que se exigiam, e que implicavam obrigatoriamente sacrifícios.
Está contra os gastos excessivos do Estado, aliás está contra todos os gastos do Estado, nem que seja o casamento do herdeiro da Coroa de outro País, e portanto de outro Estado, porque o País está a passar por um momento difícil e não é altura de gastos, tirando naturalmente subsidiar a Saúde, os transportes, os recém-desempregados com vinte e cinco anos, as portagens da SCUT mais próxima ou o clube de futebol da nossa preferência, porque só se pode estar contra pagar mais por coisas que o Estado devia oferecer-nos em troca dos nossos impostos, e se há tanto desperdício em coisas inúteis não faz sentido não nos darem também tudo o que precisamos.
Nada disto é novo, porque a melhor forma de pôr os portugueses de acordo entre si sempre foi contra alguma coisa. Sucede que, por mais que digamos o contrário, e questionemos o sistema político e económico que temos, nunca ninguém reformou um País com base naquilo a que se opõe, pelo que se queremos que Portugal ultrapasse esta situação teremos inevitavelmente que nos pôr de acordo, mas desta vez, e nem que seja só desta vez, quanto àquilo a que somos favoráveis.
Monday, May 2, 2011
O ícone do terror
No meio de especulações causadas pela ausência do corpo, ou até de fotografias do cadáver, o presidente dos EUA anunciou hoje a morte de Osama Bin Laden. A notícia mereceu naturalmente o destaque dos media a nível mundial e os americanos não se coibiram de festejar, pública e exuberantemente, o cumprimento da ameaça velada de George W. Bush, em Setembro de 2001, quando ao falar do que o Estado americano pretendia fazer para encontrar os culpados do atentado ao World Trade Center referiu de forma pouco subtil os cartazes "wanted, dead or alive" que costumavam existir no Velho Oeste americano.
Mais do que o líder de uma organização terrorista, a história recordará Osama como o primeiro — naturalmente se excluirmos o terror patrocinado por Estados, onde a galeria é longa e repleta de personagens ilustres — e maior ícone global do Terror. Vendo o impacto das suas acções e o alcance da sua mensagem amplificados pela era da internet e da comunicação instantânea, o aristocrata saudita que numa década passou de Mujahideen que combatia os soviéticos no Afeganistão com apoio norte-americano a maior inimigo declarado dos EUA, tornou-se o primeiro terrorista a ter o rosto reconhecido instantaneamente em qualquer lugar do Mundo.
A forma como os regimes autoritários que governam a maioria do mundo árabe parecem prestes a ser atingidos pela força irresitível dos ventos da História, e como as populações desses Países parecem ter tomado consciência que podem ser donas do seu destino, reduziu claramente o apelo de Bin Laden, tirando sustentação ao discurso islamista e anti-americano da Al Qaeda. Com o tempo, o outrora temível Osama iria tranquilamente ocupar o seu lugar nas prateleiras mais distantes e poeirentas, tanto da História como das nossas memórias, símbolo de um passado distante num mundo que já não justifica a sua existência. Com a morte prematura, ainda por cima ocorrida em circunstâncias pouco claras, que certamente contribuirão para alimentar o mito, Osama Bin Laden conseguiu ontem a sua última vitória: a imortalidade.
Friday, April 29, 2011
Ovelha lusitana
Entre as nossas múltiplas originalidades nacionais há uma que há muito me intriga, porque resiste teimosamente, ao tempo e à lógica, aparentemente indiferente à evolução e progresso natural das coisas: a forma como os portugueses pagam gasolina nos postos de abastecimento.
Para quem não saiba, Portugal tem uma das redes de pagamento automático mais avançadas do Mundo. Beneficiámos, como noutras áreas, de começar mais tarde que a maioria dos países ditos desenvolvidos, e isso resultou numa rede de multibanco unificada, então uma excepção, a partir da qual surgiu aliás uma míriade de inovações, dos primeiros telemóveis pré-pagos à Via Verde, para além da possibilidade de pagarmos tudo, da conta da luz aos impostos, usando um simples cartão de débito. Tornou-se aliás comum ver o português típico usar o referido cartão para pagar a mais pequena das despesas, levando os próprios comerciantes a estabelecerem limites mínimos de utilização.
Tudo isto só torna mais estranho o fenómeno que observo cada vez que ponho gasolina, servindo-me da máquina integrada nas bombas que permite, utilizando um cartão multibanco, pagar o combustível e obter o recibo sem ter sequer que me afastar do carro. O fenómeno que eu refiro é reparar, invariavelmente, que pareço ser o único a fazê-lo. Toda a gente insiste, mesmo em alturas de maior afluência, em deslocar-se à caixa para pagar, com o mesmíssimo cartão, a gasolina que abasteceram no minuto anterior, após aguardarem pacientemente numa fila pela sua vez. É para mim a maior das idiossincrasias nacionais: o povo que inventou o desenrascanço, que ignorou os sinais de proibido de fumar durante décadas, cujo sentido de independência lhe deu a fronteira nacional mais antiga da Europa é também o povo que mais facilmente adere em massa à pior forma de fazer as coisas, só porque é essa a forma usada pela maioria dos outros.
Thursday, April 28, 2011
O triunfo da verdade
Quando em 1935 Leni Riefenstahl estreou o seu Triunfo da Vontade, o momento de celebração apoteótica do nazismo que acumula o lugar na História do cinema com o papel de símbolo da ascensão irreversível do partido Nacional Socialista alemão, o mundo passou a registar como a propaganda, alimentada de ressentimento e medo do futuro, é capaz de levar o mais civilizado dos povos à loucura colectiva.
A todos os democratas, o Triunfo da Vontade deveria também lembrar uma verdade incontornável: Hitler foi livremente eleito pelos seus concidadãos.
Vem isto a propósito do Programa de Governo do PS, que distorce, omite e pura e simplesmente mente nos grandes números da nossa Economia, particularmente nos que poderíamos usar para julgar a performance governativa de Sócrates, como é o caso do défice das contas públicas. É uma técnica recorrente em Sócrates, mentir nos números ou apresentá-los fora de tempo e contexto, que não espanta qualquer observador atento, como não espantou a tónica de elegia ao líder, ao bom estilo norte-coreano, que os aprendizes de Riefenstahl que organizaram o recente Congresso do PS habilmente encenaram para dar ideia do apoio do partido ao "Zé".
A 05 de Junho, quando soubermos o resultado das eleições, iremos ver até que ponto os portugueses fizeram as contas, e conseguiram distinguir entre os números agradáveis que o discurso oficial do PS debita e a realidade nua, crua e desagradável que todos os outros referem. A incógnita permanece, mas continuo com esperança que o povo seja sereno, e em vez de mais uma repetição, com outros protagonistas, de uma história de mistificação colectiva como a que o génio de Riefenstahl retratou, o filme desta vez seja o do Triunfo... da verdade.
Sunday, April 24, 2011
Alunos e professores
Pacheco Pereira perorava há pouco, no seu programa televisivo na SIC Notícias, e a propósito de um artigo que revela que um terço das crianças portuguesas estão nas redes sociais (indicador aliás ligeiramente abaixo da média Europeia), sobre a forma como a escola não ensina os jovens a usar a internet, da pesquisa de conteúdos à interacção das redes sociais, concluindo que o sistema de ensino está a perder uma oportunidade de transformar os novos meios de comunicação numa ferramenta útil para o crescimento intelectual dos jovens, que em vez disso as vão descobrir recorrendo apenas aos seus impulsos e aos exemplos dos colegas, não explorando convenientemente o seu potencial.
Tirando naturalmente alguma educação cívica que evite que as crianças caiam em armadilhas de adultos menos bem intencionados, que aliás Pacheco Pereira referiu, e mesmo essa deverá ser dada fundamentalmente em casa, a tese do comentador do PSD revela, acima de tudo, total incompreensão da forma como o Mundo mudou, que torna o seu conceito de "ensinar a usar a internet" na escola desprovido de sentido, pela mais evidente das razões: ao contrário do que sucedeu todo o restante conhecimento acumulado e transmitido pela humanidade ao longo da sua história, se mandássemos hoje os professores portugueses ensinarem aos jovens como usar as novas ferramentas de comunicação rapidamente constataríamos que na maioria dos casos, e se entendermos aqui que o professor é quem detém o conhecimento e o aluno quem o recebe, os papéis se inverteriam, e acabariam por ser as crianças a ensinar os adultos sobre como explorar a internet.
Tirando naturalmente alguma educação cívica que evite que as crianças caiam em armadilhas de adultos menos bem intencionados, que aliás Pacheco Pereira referiu, e mesmo essa deverá ser dada fundamentalmente em casa, a tese do comentador do PSD revela, acima de tudo, total incompreensão da forma como o Mundo mudou, que torna o seu conceito de "ensinar a usar a internet" na escola desprovido de sentido, pela mais evidente das razões: ao contrário do que sucedeu todo o restante conhecimento acumulado e transmitido pela humanidade ao longo da sua história, se mandássemos hoje os professores portugueses ensinarem aos jovens como usar as novas ferramentas de comunicação rapidamente constataríamos que na maioria dos casos, e se entendermos aqui que o professor é quem detém o conhecimento e o aluno quem o recebe, os papéis se inverteriam, e acabariam por ser as crianças a ensinar os adultos sobre como explorar a internet.
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